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Os colégios técnicos da Unesp: cinco décadas ampliando a missão educacional da Universidade
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Os colégios técnicos da Unesp: cinco décadas ampliando a missão educacional da Universidade
Nathan Sampaio
A Unesp foi criada em 1976 a partir da incorporação de treze institutos isolados localizados no interior de São Paulo. Nas décadas seguintes, a instituição seguiria expandindo sua estrutura até chegar ao número de 24 câmpus e 34 unidades universitárias. Desde o início, o compromisso da Universidade foi com a democratização do ensino superior, o desenvolvimento da ciência e a promoção da extensão universitária. No entanto, ao incorporar os institutos isolados, a Universidade também ficou responsável por outras três instituições que possuíam um objetivo diferente, mas igualmente importante para o povo paulista: os colégios técnicos.
Embora tenham sido criados em épocas e cidades diferentes, os três colégios técnicos compartilhavam um mesmo propósito: oferecer uma formação técnica especializada para que os jovens pudessem atuar no mercado de trabalho. O mais antigo é o Colégio Técnico Agrícola de Jaboticabal, criado em 1921, com foco no ensino de agropecuária. Em 1967, surgiu o Colégio Técnico Industrial de Bauru, que formaria profissionais para atuar na indústria. Por fim, em 1971, surgiu o Colégio Técnico Industrial de Guaratinguetá, para atender à demanda do Vale do Paraíba, reconhecido como um importante eixo industrial do estado.
Consolidados como escolas de prestígio, os colégios viram sua missão se expandir, e hoje quem passa por seus bancos não aspira apenas a uma formação técnica de qualidade: anualmente, centenas de seus estudantes ingressam no ensino superior.
Da incorporação à renovação
Desde que os colégios técnicos passaram a fazer parte da Universidade, em 1976, a autorização de funcionamento e a supervisão de suas atividades cabiam à Secretaria Estadual da Educação e às respectivas Diretorias de Ensino. No entanto, em 2017, por meio da Deliberação CEE nº 152/2017, essa responsabilidade passou a ser da Unesp.
Naquele período, a Reitoria da Universidade começou a debater como seria realizada a gestão das unidades. A professora Iraíde Marques de Freitas Barreiro, docente da Faculdade de Ciências e Letras de Assis, foi uma das participantes dessas discussões. À época, ela atuava como assessora da Pró-Reitoria de Graduação e fora indicada como representante da Unesp junto ao Conselho Estadual de Educação. “As demandas dos colégios começaram a chegar e precisávamos indicar um dirigente de ensino. Eu me disponibilizei e, em setembro de 2020, foi publicada uma portaria aprovando a supervisão delegada [dos colégios]”, conta a docente.
A supervisão deveria prover apoio técnico, metodológico e pedagógico para os cursos de ensino médio e de educação profissional técnica de nível médio, além de acompanhar e assessorar as atividades desenvolvidas pelas escolas. “Fizemos uma comissão para entender o cenário e as demandas desses espaços. Ela contava com a participação dos diretores, docentes e coordenadores dos três colégios, totalizando cerca de 20 pessoas”, relembra. A partir desse diálogo, estabeleceu-se uma lista de demandas pedagógicas, administrativas e de gestão, que foram organizadas em metas de curto, médio e longo prazo.
Com a lista de objetivos em mãos, começou a etapa de implementação das mudanças. “Uma das primeiras alterações, e a mais complexa, foi a adequação ao Novo Ensino Médio, que envolveu a contratação de uma assessoria do Conselho Estadual de Educação para nos auxiliar”, comenta Iraíde. A política federal do Novo Ensino Médio, criada em 2017, previa mudanças na carga horária e no currículo dos cursos do segmento em todo o país. O processo de reestruturação dos colégios também incluiu a unificação de seus regimentos e a revisão do estatuto dos docentes, que estava desatualizado.
As atualizações permitiram que os colégios realizassem novos concursos para professores, uma medida necessária, já que em alguns deles havia mais professores substitutos do que efetivos. “Nos últimos anos, foram contratados 53 professores para os três colégios”, destaca a docente do câmpus de Assis. Além disso, foi estabelecido um convênio com o Centro Paula Souza para a oferta gratuita de cursos de especialização aos professores dos colégios.
A combinação da reestruturação legal dos colégios, da readequação do ensino médio, da contratação de professores e da destinação de recursos financeiros às unidades fez com que as escolas ganhassem maior protagonismo na estrutura da Universidade. “O trabalho da supervisão delegada permitiu que os colégios construíssem um sentimento de pertencimento institucional. Agora, eles conseguem vislumbrar, com mais segurança, um futuro com perspectivas de crescimento dentro da instituição”, afirma a professora.
Iraíde permanece como dirigente de ensino dos colégios. Desde 2021, é acompanhada pela Comissão Permanente da Educação Básica da Unesp, responsável pela gestão dos colégios técnicos e dos Centros de Educação Infantil. A coordenação desses espaços pedagógicos rendeu à Unesp o status de Diretoria de Ensino, uma posição concedida pela Secretaria Estadual aos órgãos responsáveis por coordenar, orientar e supervisionar escolas da rede pública de ensino.
Os trabalhos dentro da comissão e da supervisão delegada continuam, e o objetivo é aprimorar ainda mais essas escolas. Na visão de Iraíde, essas estruturas exercem um papel essencial na estrutura da Universidade. “A finalidade da educação superior é o ensino, a pesquisa e a extensão. Como os colégios técnicos pertencem à Unesp, devemos propiciar as condições para que essa etapa do ensino também seja de excelência”, diz.
Conheça abaixo um pouco do histórico de cada um dos três colégios que compõem a Unesp.
Pioneirismo e tradição no ensino agropecuário
O Colégio Técnico Agrícola “José Bonifácio”, localizado em Jaboticabal, é a instituição mais antiga da estrutura da Unesp: seu surgimento antecede até mesmo a criação da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), onde ele está abrigado.
Fundado em dezembro de 1921 pelo presidente Epitácio Pessoa, o instituto surgiu originalmente como um Patronato Agrícola, cujo objetivo era oferecer instrução primária e cívica, além de noções de agricultura, zootecnia e veterinária, a crianças e adolescentes abandonados ou em situação de vulnerabilidade social. O prédio, que hoje abriga a administração central da FCAV, possuía instalações destinadas à permanência e à formação desses jovens, como dormitórios e equipamentos de produção agrícola.
Devido à qualidade do ensino e das instalações disponíveis, o Patronato gozava de grande prestígio na região. Um sinal desse reconhecimento veio em junho de 1964, quando o governador Adhemar de Barros criou a Faculdade de Medicina Veterinária e Agronomia de Jaboticabal e escolheu a área do instituto para a sua instalação. “Essa escolha foi feita porque já tínhamos toda a estrutura do curso agropecuário”, afirma o diretor do colégio, Murilo Fernando da Silva.
A Faculdade foi inaugurada em junho de 1966 e, pouco tempo depois, em 1969, o instituto deixou de ser um Patronato Agrícola e tornou-se o Colégio Técnico Agrícola Estadual “José Bonifácio”. Ambas as instituições foram encampadas pela Unesp em 20 de abril de 1976, que passou a administrá-las.
Algumas práticas e instalações, como os dormitórios, deixaram de existir com o passar do tempo. No entanto, o prestígio do colégio apenas cresceu nesse período. “Recebemos alunos de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins e até do Maranhão, que vêm por causa do nome do Colégio”, comenta Silva. O aumento da procura foi acompanhado por uma diversificação do corpo discente, refletida na crescente presença feminina a partir da década de 1990. Hoje, as turmas de ensino médio registram paridade de gênero.
O Colégio possui uma série de laboratórios e equipamentos destinados a apoiar o aprendizado nas áreas de produção de mudas, bovinocultura, cunicultura, recursos hídricos, análise de solos e cultivo de hortaliças, milho, goiaba e outras culturas. Os estudantes secundaristas também podem frequentar setores da FCAV, como o de avicultura, a biblioteca, o restaurante universitário e o hospital veterinário.
A tradição e a expertise do Colégio despertam o interesse das empresas pelos alunos, mesmo antes de eles concluírem o curso. “Temos um estágio obrigatório de 300 horas que deve ser cumprido durante o período de férias e, mesmo com esse período extenso e com um número de 180 estudantes do curso de agropecuária, as cooperativas de Jaboticabal e da região acabam absorvendo todos os nossos estudantes”, relata Murilo. O diretor destaca que fazendas de estados como Mato Grosso do Sul e Bahia já custearam estágios de alunos do curso.
Recentemente, o Colégio passou a oferecer um curso técnico de informática integrado ao curso de agropecuária. Nessa formação, os estudantes têm acesso a atividades como o uso de drones para a aplicação de defensivos em lavouras, o estudo da robótica e a prototipagem de projetos no Laboratório de Fabricação Digital (FabLab). “Tudo começou com a disciplina de ‘Informática aplicada ao agronegócio’ no começo dos anos 2000. Com o passar do tempo, vimos que surgiram diversas conexões entre a informática e a agropecuária. Isso culminou na criação do curso noturno de técnico de informática aplicada ao agronegócio, em 2015, e depois na sua integração ao ensino médio, em 2021”, relembra Silva.
Além da possibilidade de ingressar no mercado de trabalho, uma parcela expressiva dos estudantes segue diretamente do colégio para as universidades públicas. “A maioria dos nossos alunos é aprovada para cursar as mais diversas graduações na universidade. Dentre as escolas públicas de Jaboticabal, a nossa é a que teve a melhor nota no Enem”, celebra.
Atualmente, o Colégio Técnico Agrícola “José Bonifácio” oferece o ensino médio integrado aos cursos técnicos em agropecuária e informática. Na modalidade semipresencial, também oferece o curso técnico em agropecuária.
Formando jovens para atuação nas indústrias e no ensino superior
A história do Colégio Técnico Industrial “Prof. Isaac Portal Roldán” começa em 1956, com a doação de um terreno de 20 mil metros quadrados ao poder público para que fosse construída uma escola técnica na cidade de Bauru. A promessa era de que o governo federal financiaria a instituição. Porém, após a conclusão das obras, que levaram cerca de dez anos, os recursos prometidos não chegaram, o que prejudicou atividades como a aquisição de equipamentos, a instalação de laboratórios e a contratação de professores.
Esse cenário mudaria apenas com a criação de uma escola de engenharia na cidade. Denominada Faculdade de Engenharia Mecânica, a nova instituição recebeu autorização para funcionar sob a condição de assumir a responsabilidade pela gestão do Colégio. Essa foi a forma encontrada pela administração municipal para atender à grande demanda por profissionais técnicos na região.
O Colégio foi inaugurado em 7 de abril de 1967, cinco dias antes do início das atividades da Faculdade de Engenharia Mecânica. Ambas as instituições eram administradas pela Fundação Educacional de Bauru, órgão ligado à prefeitura municipal. O primeiro diretor foi o professor Isaac Portal Roldán, que, após o seu falecimento, em 1977, se tornaria o patrono do Colégio. Outro nome importante foi Rubens Zapater, que esteve à frente da instituição por mais de 20 anos.
A atual diretora do Colégio, Daniela Mancuso Roda, conta que os cursos oferecidos não mudaram muito desde a fundação da instituição. O primeiro foi o de Habilitação Técnica em Máquinas e Motores, atualmente denominado Mecânica, que integra a oferta de formação técnica ao lado dos cursos de Informática e Eletrônica. Em 1985, o Colégio Técnico e a Faculdade de Engenharia Mecânica foram reunidos a outras instituições de ensino administradas pela Fundação Educacional e deram origem à Universidade de Bauru. Três anos depois, a Universidade foi incorporada à Unesp.
Atualmente, o Colégio mantém sua tradição de formação de profissionais técnicos qualificados. “Percebemos que, cada vez mais, as empresas procuram a nossa instituição para divulgar estágios, processos de trainee ou até mesmo vagas de emprego. Temos a percepção clara de que há uma necessidade da região de Bauru de técnicos nas três áreas”, explica Daniela. Um dos indicativos dessa alta demanda é a oferta de cursos técnicos no período noturno que, segundo a diretora, atende tanto a estudantes matriculados no ensino médio quanto a pessoas que já atuam no mercado de trabalho e buscam qualificação profissional.
Daniela acredita que o diferencial do ensino oferecido pela instituição é a construção de uma base conceitual sólida. “Estamos sempre tentando nos atualizar para as inovações do mercado de trabalho, mas é difícil acompanhar. Por isso, buscamos formar um profissional capaz de resolver questões complexas e que consiga se adequar rapidamente às novas tecnologias”, destaca a diretora. Essa proposta inclui aulas práticas em laboratórios e oficinas, que tornam o aprendizado mais desafiador e dinâmico.
Os resultados dessa abordagem pedagógica também se refletem no desempenho dos estudantes no Enem e em outros vestibulares. Na edição de 2025 do exame, o Colégio Técnico de Bauru obteve a melhor média geral entre as escolas da rede estadual de São Paulo. Segundo Daniela, a maioria dos alunos também costuma conseguir aprovação em universidades públicas. “Oferecemos essa base sólida para que os alunos tenham autonomia para continuar estudando, caso queiram e haja possibilidade”, destaca.
A aproximação entre o Colégio e o câmpus da Unesp em Bauru é outro incentivo ao ingresso no ensino superior. De acordo com a diretora, é muito comum que os alunos do ensino médio participem do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica Júnior em parceria com docentes da graduação. A iniciativa, apoiada pelo CNPq, permite que os estudantes se aproximem do ambiente acadêmico, frequentem os laboratórios do câmpus para desenvolver suas pesquisas, colaborem com grupos de pesquisa e participem do Congresso de Iniciação Científica. “Essa experiência só é possível pela nossa vinculação com a Unesp. E para o aluno, é um diferencial”, destaca.
Destaque na formação de jovens no Vale do Paraíba
Fundado em 31 de março de 1971, o Colégio Técnico Industrial “Prof. Carlos Augusto Patrício Amorim” está localizado no Vale do Paraíba, um dos eixos industriais, logísticos e tecnológicos mais importantes do país. A iniciativa de criar uma escola técnica partiu de Antônio Gilberto Filippo Fernandes, que, na época, atuava como diretor da Faculdade de Engenharia e Ciências de Guaratinguetá (FEG).
A proposta era criar um centro de formação técnica capaz de suprir a demanda por profissionais qualificados para atuar nas diversas indústrias da região. Inicialmente, o Colégio oferecia os cursos de Eletrotécnica e de Máquinas e Motores, hoje chamado de Mecânica. Além desses, os cursos de Eletrônica, Automação Industrial e Eletroeletrônica completam o leque de formações oferecidas pelo Colégio.
Embora o professor Antônio Gilberto seja o fundador, o Colégio homenageia Carlos Augusto Patrício Amorim, que foi o segundo diretor da instituição e teve papel fundamental na organização de sua estrutura. A qualidade da formação oferecida pela escola é reconhecida pelo mercado de trabalho. “Há uma grande quantidade de empresas, inclusive multinacionais, que vêm até o colégio para fazer o recrutamento e a seleção de seus estagiários”, relata Cesar Renato Faria Ribeiro, diretor da escola.
Apesar do interesse das empresas pelos alunos, a instituição também incentiva os estudantes a ingressar no ensino superior. Neste ano, o Colégio Técnico obteve a melhor média no Enem e conquistou a primeira colocação no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) entre as escolas de Guaratinguetá.
Ribeiro ressalta o sucesso dos alunos do Colégio nos vestibulares da Unesp e de outras universidades públicas. “Nossa média de aprovação está acima dos 80%. E na graduação nossos egressos costumam se destacar, envolvidos com projetos de iniciação científica, atividades de pesquisa e outras ações”, destaca.
Para o diretor, o sucesso do Colégio na inserção de seus alunos no mercado de trabalho e nas principais universidades públicas é fruto do esforço conjunto de toda a equipe da instituição. “Desde a empresa terceirizada até nossas secretárias, funcionários, professores e o grupo gestor, todos trabalhamos de forma coesa. Sempre estamos reunidos, discutindo assuntos inerentes à escola”, diz.